Atender adolescentes é atender uma pessoa em relação.
Na clínica, é comum que a queixa chegue primeiro pela família:
“Ele não conversa mais comigo.”
“Ela está muito agressiva.”
“Não quer mais estudar.”
“Passa o dia no celular.”
Mas, na perspectiva da Gestalt-terapia, a pergunta não é apenas: “O que esse adolescente tem?”
É também: “O que está acontecendo entre essa pessoa e o campo do qual ela faz parte?”
A adolescência é atravessada por muitas transformações.
O corpo muda, as relações se reorganizam, a busca por autonomia ganha força e novas formas de estar no mundo começam a ser experimentadas.
Por isso, um comportamento que aparece como “problema” pode também ser compreendido como uma tentativa de responder a algo que está acontecendo naquele campo.
Um adolescente que se fecha pode estar encontrando uma forma possível de preservar sua intimidade.
Um adolescente que confronta constantemente pode estar experimentando novas possibilidades de autonomia.
Um adolescente que se distancia da família pode estar tentando construir uma diferenciação necessária.
Isso não significa romantizar ou justificar qualquer comportamento.
Significa buscar compreender sua função e o contexto em que ele aparece, antes de reduzi-lo a um sintoma ou a uma característica individual.
E existe uma particularidade importante: o adolescente não chega sozinho ao processo terapêutico.
Os responsáveis fazem parte desse campo.
A escola pode fazer parte.
Os amigos fazem parte.
E o próprio terapeuta também passa a ocupar um lugar nessa rede de relações.
Por isso, atender adolescentes exige sustentar uma clínica que consiga olhar para a pessoa e para o campo ao mesmo tempo, sem perder de vista a singularidade daquele adolescente.
Talvez uma das perguntas mais importantes seja:
“O que esse adolescente está tentando construir, proteger ou transformar através da forma como está se relacionando com o mundo?”
É a partir desse tipo de pergunta que podemos começar a construir uma clínica gestáltica com adolescentes.
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