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“MAS ELE NÃO FALA SOBRE O QUE SENTE.”


E se, antes de pensar em frieza e falta de expressão emocional, perguntássemos:


O que esse adolescente aprendeu sobre sentir e demonstrar emoções?


Na clínica gestáltica com adolescentes, olhar para as introjeções pode nos ajudar a compreender determinados modos de funcionamento.


Antes de chegar na adolescência, a criança relacionou-se com o ambiente principalmente por meio de introjeções, incorporando, de forma parcial ou total, crenças, valores, pensamentos e modos de agir transmitidos pela família, pela escola, pela cultura e pela sociedade. 


Um exemplo. Um adolescente cresce ouvindo que "homem não chora”. Essas mensagens, inicialmente assimiladas como verdades, podem tornar-se introjeções que orientam seu modo de agir e de se relacionar. Esse adolescente pode apresentar dificuldade em expressar suas opiniões, reconhecer e comunicar suas emoções, porque aprendeu a inibi-las para manter o vínculo com figuras significativas. 


Então, diante da tristeza, ele se cala. Diante do medo, tenta parecer forte. Quando precisa de ajuda, evita pedir. Quando sente vontade de chorar, reprime.


Não necessariamente porque “não tem emoções”, mas porque aprendeu que determinadas manifestações não seriam aceitas ou poderiam ameaçar seus vínculos.


Na perspectiva gestáltica, não buscamos simplesmente substituir uma introjeção por outra.

O trabalho envolve favorecer awareness sobre aquilo que acontece no aqui-agora:


→ Como essa mensagem aparece hoje?

→ O que acontece quando ele tenta expressar o que sente?

→ De quem é essa voz?

→ O que ele aprendeu que aconteceria se não seguisse essa regra?

→ Esse modo de funcionar ainda responde às suas necessidades atuais?


A partir desses questionamentos, o adolescente pode deixar de reproduzir de modo automático e passar a assimilar de forma crítica. Se perguntando: Esse é um valor que eu desejo preservar? Faz sentido na minha forma atual de estar no mundo? 


Nesse sentido, o questionamento das introjeções não representa uma ruptura com o ambiente, mas a possibilidade de transformar conteúdos antes aceitos passivamente em escolhas conscientes, ampliando a capacidade de autorregulação e de contato genuíno consigo mesmo e com os outros.


Porque construir uma identidade também envolve descobrir o que é meu, o que veio do outro e o que eu quero fazer com aquilo que recebi.


 
 
 

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