Queixa inicial é diferente da demanda terapêutica
- Transborda Psicoterapia
- há 1 dia
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Uma das confusões mais comuns na clínica é acreditar que o nosso trabalho é resolver a queixa que o cliente traz. Mas não é.
O nosso trabalho é construir, junto com ele, a demanda terapêutica. Transformar uma demanda inicial em demanda terapêutica é, antes de tudo, compreender o que a terapia pode (e o que não pode) fazer diante daquilo que chega.
E isso exige clareza do terapeuta sobre o seu próprio papel. Porque, quando isso não está claro, a terapia corre o risco de se tornar um serviço de resolução de problemas externos.
Porque, muitas vezes, o sintoma não é o problema. É a solução possível que aquela pessoa encontrou para sobreviver. Quando o terapeuta trabalha só para remover a queixa, pode ajudar a pessoa a perder justamente o recurso que ela tinha para se manter organizada, mesmo que com sofrimento.
Por isso, escutar a queixa é importante. Mas escutar o que existe por trás dela é essencial. Nem tudo que o cliente pede é, de fato, o que ele precisa. E não é sobre corrigir o cliente. É sobre, juntos, descobrirem do que realmente se trata.
Se alguém chega dizendo: “Meu namorado é um escroto.” A demanda inicial parece ser o namorado, mas ele não está na terapia e não é ele que podemos transformar diretamente (não vamos fazer o namorado mudar). Também não é nosso papel convencer o cliente a terminar.
A demanda terapêutica é compreender o que sustenta essa relação apesar do desconforto. É investigar o que mantém o cliente ali: o que ele sente, evita, teme, precisa e busca, mesmo sem perceber.
A clínica não é sobre dar direção. É sobre ampliar consciência. Porque é a partir da consciência que novas possibilidades podem emergir, inclusive a possibilidade de sair ou de ficar, mas, nesse caso, não mais por repetição e sim por escolha.
Por isso, parte fundamental do nosso trabalho é ajudar o cliente a compreender o que é possível fazer em terapia e o que não é. Não para limitar o processo, mas para aprofundá-lo.
A queixa fala do incômodo. A demanda terapêutica revela o modo de existir que sustenta esse incômodo. E é aí que a terapia acontece.
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