A liberdade individual e a responsabilidade pela própria vida nos levam à passividade?
O existencialismo já foi muito criticado por supostamente levar as pessoas à passividade. A defesa da liberdade e da responsabilidade individual foi interpretada como um convite ao quietismo, como se reconhecer a responsabilidade pelas próprias escolhas significasse permanecer inerte diante da vida e da realidade que nos cerca.
Essa discussão também atravessa a clínica. Mas, na Gestalt-terapia, compreender a responsabilidade do cliente pela própria existência não significa convencê-lo a agir, nem culpá-lo por não conseguir mudar uma situação que lhe causa sofrimento.
Por exemplo, aquele cliente que não se vê mais feliz em um relacionamento, mas não quer sair dele; uma cliente que começou um curso de graduação, não se identificou com a escolha, mas não considera mudar; ou aquele cliente que não consegue estabelecer limites nas relações e continua se colocando em situações que lhe causam sofrimento.
Existem medos, inseguranças, necessidades, experiências e condições concretas que participam da maneira como cada pessoa se posiciona diante da vida. Às vezes, permanecer em determinada situação é a forma que ela encontrou para se ajustar ao campo em que está inserida, mesmo quando esse ajustamento já não atende às suas necessidades.
Por isso, o trabalho clínico envolve ampliar a awareness do cliente sobre como ele tem vivido sua existência: como se relaciona com suas necessidades, como estabelece contato com o outro, como responde às situações que vivencia e quais possibilidades consegue reconhecer no campo.
No setting terapêutico, o cliente pode explorar como participa das situações que vive, quais recursos estão disponíveis e quais limites atravessam suas possibilidades de ação. Não se trata de afirmar que basta querer para mudar, mas de favorecer o reconhecimento de outras formas possíveis de se ajustar criativamente ao campo.
Ampliar a awareness não significa exigir movimento, mas favorecer o reconhecimento das possibilidades que existem, inclusive daquelas que ainda não conseguem ser percebidas. A clínica não precisa transformar a liberdade em mais uma obrigação, mas pode favorecer uma relação mais consciente com a própria existência e com as possibilidades de ação que emergem no encontro com o mundo.
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