“Todo relacionamento está destinado a acabar em algum momento. Mas nada te impede de começar um novo com a mesma pessoa.”
Você já ouviu essa fala de Esther Perel? Essa frase foi uma das ideias que inspiraram a criação do filme O Convite.
Na trama, acompanhamos Joe e Angela, um casal em crise que convida os novos vizinhos para um jantar. O que parecia apenas um encontro entre casais se transforma em uma exposição das vulnerabilidades, desejos e conflitos que estavam presentes, mas não eram reconhecidos.
E é aí que a frase de Esther Perel encontra o filme.
Quando ela fala sobre “começar um novo relacionamento com a mesma pessoa”, não está falando sobre terminar e voltar. Está falando sobre reconhecer que as pessoas mudam, inclusive nós mesmos, e, quando uma pessoa muda, a relação também precisa encontrar uma nova forma de existir.
Desse modo, a relação também precisa se reorganizar diante desse novo modo de existir, uma vez que o ajustamento que antes funcionava pode já não responder às necessidades que emergem no campo.
Na Gestalt-terapia, podemos pensar esse movimento a partir da autorregulação organísmica.
Uma necessidade emerge no campo. Algo que antes funcionava já não dá conta da experiência atual. O sujeito percebe, experimenta novas possibilidades e busca um ajustamento que possa responder àquilo que está vivo naquele momento.
A questão no filme talvez não estivesse na percepção dessa nova necessidade por parte dos personagens, mas na mobilização para fazer algo diferente.
Eles reconheciam que o relacionamento não estava funcionando da forma como se apresentava. O que parecia faltar era a possibilidade de transformar essa percepção em movimento.
Não conseguiam verbalizar o que estava emergindo, comunicar ao parceiro seus desejos e necessidades ou experimentar novas formas de se ajustar dentro daquela relação. A percepção estava ali, mas não se transformava em ação.
E, na Gestalt, o awareness não diz respeito apenas a perceber o que acontece. Ele também pode possibilitar a mobilização para uma ação diferente, para um novo ajustamento e, consequentemente, para uma nova forma de contato.
Talvez seja justamente esse o ponto: perceber que algo mudou não significa, necessariamente, conseguir fazer algo com aquilo que foi percebido.
Por isso, talvez não seja possível “voltar” para a mesma relação.
Mas pode ser possível encontrar uma nova forma de estar nela.
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