Estudando conceitos da Gestalt Terapia com Elis Regina.
- Transborda Psicoterapia
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Na Gestalt-terapia, existem dois conceitos fundamentais que muitas vezes são pensados como opostos, mas que, na realidade, se complementam: heterossuporte e autossuporte. Aqui, vamos refletir sobre essa relação a partir da música “Como Nossos Pais”, de Elis Regina.
O autossuporte é a capacidade do sujeito de sustentar-se internamente. Trata-se de confiar em si mesmo para enfrentar as adversidades e responder criativamente ao campo. É o sujeito que se apoia nos próprios recursos.
No entanto, esse autossuporte não surge de forma isolada. Ele se constitui a partir do heterossuporte, que diz respeito ao sustento oferecido pelo ambiente e pelas relações: o cuidado, a presença e o acolhimento fornecidos pelo outro e pelo campo.
No trecho ‘'Não quero lhe falar, meu grande amor das coisas que aprendi nos discos." Elis fala sobre não querer expor um conhecimento que veio do externo, do campo, dos discos. Apesar de reconhecer o sustento e o aprendizado que esses discos proporcionaram, aqui ela se refere principalmente aos canais de comunicação política, e não é sobre isso que ela quer falar.
Logo em seguida, ela apresenta o que ela quer falar “Quero lhe contar como eu vivi / E tudo que aconteceu comigo”. Aqui, ela mostra que, depois de ter sido apoiada pelo campo ela passa a internalizar esse suporte. Esse momento reflete claramente a ideia gestáltica de que o autossuporte só nasce a partir do heterossuporte.
Para que o sujeito possa confiar em si e em seu potencial (autossuporte), é necessário que, em algum momento, tenha se sentido amado, protegido e sustentado (heterossuporte). O campo em suas múltiplas dimensões, cultural, política, religiosa e social participa ativamente da constituição do autossuporte.
Voltando à música, Elis apresenta novamente o heterossuporte em “Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua”. Aqui nos deparamos com uma expressão clara de heterossuporte. O sujeito é sustentado pelo campo social e afetivo. As relações familiares e os vínculos amorosos vão oferecer apoio, segurança e referência, condições essenciais para que o sujeito desenvolva seu autossuporte.
"Eu sei de tudo na ferida viva. Do meu coração”- Nesse trecho, o sujeito reconhece suas próprias experiências, emoções e limitações de forma direta, assumindo responsabilidade sobre sua vida e seus sentimentos. Ele não depende do campo para validar seu conhecimento interno.
"Hoje eu sei que quem me deu a ideia. De uma nova consciência e juventude. Ta em casa. Guardado por Deus. Contando Vil Metal." A pessoa que forneceu apoio e consciência ao sujeito hoje está em casa. Foi a partir desse heterossuporte que ele pôde desenvolver seu autossuporte, internalizando o apoio recebido e aprendendo a se sustentar por si mesmo diante da vida.
Sendo assim, essa música nos mostra claramente a relação entre autossuporte e heterossuporte. O sujeito não se constitui de forma isolada; ele aprende, se fortalece e desenvolve sua capacidade de se sustentar porque interage com o campo que o apoia e o sustenta.
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