Os Limites do Contato Consciente na Perspectiva Gestáltica. Por Que Não Conseguimos Estar em Dois Lugares ao Mesmo Tempo?
- Transborda Psicoterapia
- há 12 horas
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Na Gestalt-terapia, o conceito de contato é central. É por meio dele que nos relacionamos com o mundo, com o outro e conosco mesmos.
De acordo com Ênio Brito, podemos pensar em dois grandes grupos de contato:
Contato inconsciente – refere-se a tudo aquilo que vivenciamos sem nos darmos conta. Exemplos: respiração, batimentos cardíacos, autorregulação do organismo, nossa sabedoria.
Contato consciente – envolve aquilo que se torna figura no nosso campo perceptivo. Ou seja, é aquilo de que nos damos conta no aqui-agora. Esse contato depende da formação figura-fundo.
Na Gestalt, sabemos que a consciência é seletiva e limitada. Conseguimos contatar conscientemente apenas uma figura por vez, mesmo que alternemos rapidamente, em fração de segundos, a atenção entre diferentes estímulos.
Ênio Brito traz um exemplo no livro Dialogando com a Ansiedade. Muitos motoristas acreditam que podem manter contato pleno com o trânsito e com o celular ao mesmo tempo.Do ponto de vista gestáltico, isso não acontece de forma simultânea.
Quando o celular se torna figura: o trânsito vira fundo. Quando o trânsito retorna como figura: o celular sai do foco. Esse vai-e-vem pode acontecer em segundos, mas, enquanto o trânsito está no fundo, há redução da presença, da percepção e da capacidade de resposta.
Vou dar outro exemplo para ficar ainda mais explicado. Imagine um terapeuta que está atendendo um cliente que relata uma experiência de sofrimento profundo. Durante o relato, o terapeuta começa a pensar em um problema pessoal que viveu recentemente.
Fisicamente, ele permanece ali. Está sentado, escutando, talvez até intervindo. Mas, do ponto de vista do contato consciente, algo mudou no campo. Quando a fala do cliente é figura, há contato pleno. Quando os pensamentos do terapeuta viram figura, o cliente passa para o fundo. Essa alternância pode ser sutil e rápida. E isso ilustra exatamente o limite do contato consciente, assim como sua seletividade.
A Gestalt nos ajuda a compreender que a qualidade do contato depende da presença. Quando ignoramos os limites da consciência e tentamos sustentar dois focos ao mesmo tempo, não aprofundamos nenhum.
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